Baguncinha básica…

 

De uma coisa sou especialista, sem nenhum orgulho, mas ainda especialista. Sempre fui o rei da bagunça, quase acumulador disfarçado e consumidor hiperativo de novas tralhas. Isso me incomodava e me deixava angustiado. Mesmo quando ainda não sabia do mal que se escondia neste costume. Tentava sobreviver sem traumas no caos desorganizado.

Na realidade, nunca havia visualizado esses amontoados de coisas perdidas em caixotes, pastas, baús e nas estantes da vida como algo que me incomodasse ao ponto de me tirar o sono. Nunca fui consumista de comprar coisas novas, mas muitas vezes guardava outras como papéis, revistas, jornais, roupas e outros produtos que no fundo não precisava.

Algumas vezes tentava me convencer de que seria útil no futuro. Claro que era um blefe. Muito raramente saberia acessar essa coisa guardada, escondida, perdida, sei lá. Tantas vezes me surpreendi ao achar algo que nem lembrava ter e, em outras, cansava de procurar aquilo que tinha certeza de estar guardado.

Esse retrato apocalíptico, tenho certeza, não é exclusivo meu. Conheço tantas outras pessoas que sofrem do mesmo mal e, o pior, nem reconhecem o malfazejo. A tendência de guardar tralhas ou bagunça é vista até onde menos se espera. Dentro das bolsas mais chiques de madames, por exemplo, ou na gaveta de maquiagens desta mesma distinta pessoa. As gavetas, por falar nisso, parecem que foram feitas para esconder pequenos crimes. Os esqueletos foram para o armário porque não cabiam nas gavetas. Elas são a prova que elimina o álibi de muitos que se dizem organizados.

Contra uma bagunça institucionalizada o remédio passa primeiramente pela conscientização do problema. Depois é preciso disciplina e foco em decisões conscientes para a mudança de um hábito nocivo. Sem mudança de hábito é impossível alterar esse estado de ser bagunceiro. É fundamental a conscientização do seu estado desorganizado, para não dizer caótico, a fim de exercitar na prática a mudança de atitude em relação às tralhas que consciente ou inconscientemente acumulamos.

Alguns passos são básicos. O primeiro é destralhar. Ou seja, fazer uma limpa em tudo que você precisa organizar, descartando tudo aquilo acumulado sem sentido e estabelecendo uma ordem de referência àquilo que será guardado. Meu objetivo aqui não é ensinar o beabá sobre organização, até porque está longe de ser minha especialidade. Minha reflexão é muito mais sobre os aspectos comportamentais ligados à luta contra a bagunça.

Mexer profundamente no nosso mundo das coisas guardadas vai fundo na nossa alma. É remédio até contra a depressão. Dá um trabalho gigantesco, mas te deixa novinho. E esse universo das coisas guardadas não se resume a um cômodo da casa, do local de trabalho ou da casa toda. Na verdade inclui nossa vida digital, nossos relacionamentos reais e virtuais e até mesmo o nosso interior, essa oficina de pensamentos e sentimentos que é a nossa alma. Você já reparou quanta tralha insistimos em guardar no nosso universo interior?

Essa reflexão é bem mais profunda do que apenas estabelecer um sistema de organização, de limpeza e de armazenamento de coisas. Passa pela compreensão de que muitas vezes o menos é mais e de que precisamos filtrar muito bem aquilo que guardamos. A excelência deste filtro vai determinar a qualidade da nossa vida, analisando a questão de uma maneira mais ampla. Por isso, não perca tempo. Aproveite cada oportunidade para destralhar aquela gaveta, aquele HD no computador, o celular, suas redes sociais, sua casa, seus pensamentos e sua vida. Guarde apenas o que vale a pena para viver feliz.

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Profissional do jornalismo desde 1996 e entusiasta do empreendedorismo digital. Figura carimbada em redação de jornais, vislumbra novas oportunidades no marketing de conteúdo e no desafio do homeoffice. Freelancer por opção, ele é manauara, nascido no Rio. Cristão pela graça, amigo de cães e gatos.

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