Entrevista com comandante do CMA, general Nardi

Reproduzo aqui entrevista com o general Nardi, comandante do CMA, realizada na última quinta-feira, dia 23, na sede da Rádio Baré. Abaixo a matéria publicada no Jornal do Commercio e o vídeo reproduzido da Amazon Play TV Digital.

ENTREVISTA: Carlos Augusto Nardi, general do Exército, comandante Militar da Amazônia

‘É importante que a BR-319 seja recuperada’

Fred Novaes

Na semana destinada às comemorações do Dia do Soldado (dia 25 de agosto), o comandante Militar da Amazônia, general Carlos Augusto Nardi, concedeu uma entrevista exclusiva na sede da Rádio Baré, numa parceria entre o Grupo de Comunicação Jornal do Commercio e a Amazon Play TV Digital. O trabalho de controle nos 150 quilômetros de fronteira da região, a alta incidência de candidaturas militares e a necessidade de recuperação da BR-319 foram alguns dos temas presentes na entrevista. O general Nardi destacou ainda projetos como o suporte a pesquisas que já vem dando frutos, como a recente expedição ao Pico da Neblina que possibilitou uma série de pesquisas inéditas graças a logística oferecida pelas Forças Armadas. A seguir, a entrevista:

Jornal do Commercio – O Amazonas possui uma área de fronteira extremamente vulnerável na Região da Tríplice Fronteira no Alto Solimões. Como o Exército atua na região para evitar ilícitos como o tráfico de drogas e crimes ambientais?

General Nardi – Nós temos uma atuação diversa nas áreas de fronteira. Temos a atuação direta dos pelotões de fronteira que fazem o controle permanente em algumas calhas de rios como do rio Javari, do rio Içá, do rio Juruá, onde existem pelotões que controlam o tráfego nesses rios. Além disso, são feitas patrulhas de reconhecimento de fronteira e existem missões específicas onde mais tropas são deslocadas em operações de maior envergadura ampliando essa área de fiscalização. Normalmente operamos ainda com as agências, como em Tabatinga onde existe a Base Anzol, com a Polícia Federal, Receita Federal e o apoio do Exército que atua junto. Esse apoio é muito importante. Em algumas áreas nós atuamos mais isoladas em razão das dificuldade de acesso. Mas nas grandes operações essas agências cerram a frente conosco para reforçar o trabalho. Atuamos não só para combater o narcotráfico, principalmente com a Polícia Federal, como também no controle de crimes ambientais, com o Ibama. Só de drogas neste ano nós tivemos mais de 8 toneladas apreendidas na fronteira.

JC – E esse quantitativo de homens disponível hoje é suficiente para a necessidade?

General Nardi – O Exército vem ao longo dos anos aumentando a sua presença na Amazônia. Hoje nós estamos na faixa de fronteira com 9 a 10 mil homens, deslocados entre os 150 quilômetros de faixa de fronteira. Além disso, existem batalhões como de Barcelos no limite da faixa e toda a sua atuação é próxima da faixa. Nós sempre queremos mais no nosso efetivo; poderíamos ter mais, mas estamos nos adequando e procuramos compensar a não possibilidade de aumento do efetivo com o uso de tecnologia aplicada a essas tropas que estão na fronteira, com inteligência e integração aos outros órgãos.

JC – O Exército Brasileiro é importante para garantir a soberania nacional nas regiões mais distantes do Amazonas. Como se dá essa ocupação em áreas estratégicas?

General Nardi – A instalação dos pelotões vem se ampliando. Em alguns locais nós somos a única presença do Estado. O único ponto de apoio do Estado para que outros órgãos possam operar a partir dali. Conseguimos marcar presença em locais distantes do Estado. Além da proteção das fronteiras, levamos ainda serviços como assistência médica a integração por meio de internet e o suporte para guardar esses meios a fim de beneficiar a população. A ideia dos pelotões é fundamental para a soberania apesar de exigir sacrifício das famílias que estão lá deslocadas. Mas pelas visitas que fiz  fiquei satisfeito de ver a disposição dos militares e das famílias em contribuir com esse trabalho com motivação.

JC – Vivemos hoje um processo eleitoral com uma maior presença de militares candidatos. São pelo menos 990 candidatos militares, um crescimento de 11% sobre a última eleição. Como o senhor vê esse movimento?

General Nardi – Essa possibilidade sempre existiu. O militar não pode ter filiação partidária. O Exército como instituição é apolítico. Nós somos uma instituição do Estado. Não nos envolvemos em disputas partidárias. Mas como qualquer cidadão ele tem essa opção de procurar contribuir com o Brasil num outro campo, não no campo militar, mas no campo político. Se o militar é da ativa quando eleito ele deixa a força. Aquele que é temporário a própria candidatura já o inabilita a continuar na função. Então eu vejo com naturalidade fruto de uma maior envolvimento com a política trazido pelas mídias sociais com a participação popular nesse meio e os que quiseram se lançar tenho certeza que tem o mesmo objetivo de quando estavam na Força, de trabalhar para o país agora não mais no campo militar, mas no campo político.

JC – É sabido que as implicações logísticas são dificultadoras de uma série de atividades na Amazônia, incluindo as pesquisas científicas, mas o Exército tem se destacado no trabalho de suporte a pesquisas na Região. Como tem sido essa atuação atualmente?

General Nardi – Essa parceria foi muito incentivada no comando do general Theóphilo com a instituição do Pro-Amazônia. É uma ação de incentivo oferecendo a infraestrutura do Exército para os pesquisadores. Nós temos em nosso pelotões os pavilhões de terceiros que foram criados exatamente para abrigar agências, pesquisadores interessados em atuar naquela região. Além disso fazemos parceiras do Cigs com universidades com o Inpa. Há pouco tempo tivemos a expedição para o Pico da Neblina, com vários pesquisadores, fazendo uma logística pesada que foi fundamental para o trabalho realizado pelos pesquisadores. Essa é uma área que o Exército está aberto para colaboração com o meio acadêmico. O interessante no trabalho realizado no Pico da Neblina é que já vemos os frutos dessa atividade com a informação de publicação de trabalhos de pesquisa a partir do que foi levantado lá.

JC – Como o senhor vê esse imbróglio em torno da BR-319 que já perdura a mais de 10 anos, com um jogo de empurra do governo federal para as licenças necessárias para a obra.

General Nardi – A BR-319 já existiu. Ela ainda existe, mas as condições são precárias nas épocas das chuvas. A melhoria na condição dessa estrada é bom não apenas para Manaus, mas para todas as populações que vivem no entorno dessa estrada. É importante que ela seja recuperada para tornar mais rápida a integração com a Região Sul. Importante também uma vez que há uma preocupação com o controle ambiental, com a ocupação desordenada, mas hoje há meios eficientes de controle que podem ser aplicados para impedir essas questões. Há formas de termos uma estrada boa de ligação com controle ambiental adequado para a região.

JC – E Exército está pronto para entrar nesse trabalho se for chamado depois de sanadas as questões que impedem as obras na rodovia?

General Nardi – A Engenharia do Exército está sempre pronta para realizar os trabalhos dentro da cooperação pelo seu trabalho e sua experiência. Agora estamos trabalhando na recuperação da BR-307 que liga São Gabriel a Cucuí. E lá as comunidades estavam muito preocupadas com o escoamento da produção. Esperamos avançar ao máximo essas obras neste período seco.

 

 

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Profissional do jornalismo desde 1996 e entusiasta do empreendedorismo digital. Figura carimbada em redação de jornais, vislumbra novas oportunidades no marketing de conteúdo e no desafio do homeoffice. Freelancer por opção, ele é manauara, nascido no Rio. Cristão pela graça, amigo de cães e gatos.

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